Festival do Rio: “Elefantes na Névoa”

Pela primeira vez um filme do Nepal ganha o Prêmio do Júri na Mostra Un Certain Regard de Cannes e chega com grandes chances à disputa pelo Oscar de filme internacional. Elefantes na Névoa (Tiniharu) é obra cinematográfica de rara intensidade, forjada no interior de um grupo social marginalizado e pouco ortodoxo.

O Nepal é um dos poucos países que reconhecem um “terceiro gênero” com base na autoidentificação. As comunidades kinnar são formadas por mulheres transgênero que, rejeitadas por suas famílias biológicas, formam famílias escolhidas. Assim é Pirati, a protagonista, interpretada por Pushpa Thing Lama, ativista LGBTQIA+ que nunca havia atuado frente às câmeras. Ela tem três filhas escolhidas, todas trans.

Perante seu guru, as kinnars fazem votos de castidade e de não comer carne de porco, entre outras interdições. Pirati, porém, está apaixonada por um homem e, por conta disso, perderá seu posto de mãe da família. Ela faz planos de partir com o namorado para Délhi. A Índia é um destino almejado, sobretudo por aquelas que desejam fazer a transição física por castração, chamada por elas de Nirvana ou “troca de alma”.

Pirati tem uma espécie de filha preferida, a ex-prostituta e dançarina clandestina Apsara (nome que, na tradição hindu, significa donzela celestial ou dançarina). Apsara (Aliz Ghimire) não aceita a separação da mãe e desaparece na floresta durante uma expedição noturna dos aldeões para afastar os elefantes selvagens que ameaçam as plantações. Pirati terá que optar por buscar sua felicidade pessoal ou manter-se fiel à família na busca pela filha extraviada.

O teor algo melodramático desse entrecho é dissolvido numa pulsante visão etnográfica das kinnars. Há séculos elas são consideradas repositórios de poder espiritual. Suas bênçãos são requeridas em partos e casamentos, mas elas também costumam ser acusadas de lançar maldições e perseguidas por gente homofóbica, como veremos no decorrer do filme.

Em seu longa de estreia, o diretor Abinash Bikram Shah invoca influências do mestre indiano Satyajit Ray, do taiwanês Hou Hsiao-hsien e da fotógrafa Nan Goldin. Ele retrata com vigor e graça os rituais e costumes da comunidade, contando com um elenco majoritariamente autêntico que traz suas vivências reais para a tela com muita energia. As kinnars são vistas com suas contradições, suas belezas e vulgaridades. A intenção é de compreendê-las ao invés de paternalizá-las.

A produção envolveu, além do Nepal, a França, a Alemanha, a Noruega e o Brasil. A participação dos produtores brasileiros Tatiana Leite e Leonardo Mecchi envolveu recursos financeiros e técnicos, especialmente na área do som com o trabalho de Pedro Sá Earp e a Confraria de Sons & Charutos. Esse, aliás, é um dos grandes méritos do longa. As sonoridades da floresta, os gritos dos aldeões para assustar os elefantes, os cantos e as exortações compõem um tecido acústico precioso. O hábito de bater palmas, por exemplo. assume significados míticos que reverberam na trilha musical palpitante do francês Frédéric Alvarez. Por sua vez, a textura das imagens, a paleta de cores e as luzes da fotografia do francês Noé Bach nos envolvem numa combinação de júbilo e misticismo.

Elefantes na Névoa é bem-vindo por outras razões além do seu tratamento sagaz e respeitoso de um universo queer tão peculiar. O filme vem num vento de renovação da cultura nepalesa, culminado pela eleição, em março último, do engenheiro e rapper Balendra Shah, ex-prefeito de Katmandu, para o cargo de Primeiro-Ministro. Com 36 anos, pertencente à Geração Z, ele é o mais jovem estadista a ocupar esse posto.

>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/tiniharu

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